Os Arturos – Exemplo de respeito aos Pais.

Autor: Paulo Antônio Almeida

O estudo da comunidade negra dos Arturos, um remanescente de quilombo presente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, poderá demonstrar que características de formação de identidades representativas dessa herança cultural negra escravocrata do Brasil permanecem, pós-lei Áurea, na região urbana de Minas Gerais.


De acordo com Bourdieu, a transmissão da herança através do pai é condição básica de sobrevivência, e que necessita de um sistema educacional e social para se perpetuar. O processo de construção da identidade depende de processos de julgamentos e sanções que confirmam ou não o destino da família.

O estudo da comunidade dos Arturos nos dará subsídios para compreender os processos que subsidiaram a continuidade desse grupo e os aspectos de sua manutenção.


O componente religioso é estruturador da comunidade dos Arturos. A razão social da comunidade é Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Contagem. Compreender esse fenômeno religioso irá trazer esclarecimentos sobre o papel da religião na continuidade dos hábitos e costumes do grupo.


“O campo religioso capta e legitima processos psíquicos que apareciam nas instâncias que regem a existência cotidiana, como recusas patológicas da realidade: os personagens celestiais, objetos imaginários inscritos num simbolismo socialmente aceito de uma tradição mística autônoma permitem a projeção de fantasmas reconhecidos pelo ambiente e asseguram uma regulamentação religiosa.” (Jacque Maitre, 1975.p.8).


O processo de construção de identidade dos Arturos está intimamente relacionado à formação histórica do povo brasileiro. O preconceito racial contra os negros é uma realidade em nosso país, como demonstrou o estudo realizado pelo pesquisador Carlos Hasenbalg, em seu livro Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. (2005).

  1. Construção da Identidade dos Arturos e sua relação com as teorias sobre o preconceito racial no Brasil.
    Esse estudo visa analisar como a identidade dos Arturos se perpetuou levando-se em consideração os fatores históricos, geográficos, biológicos, memórias coletivas, fantasias pessoais, aparatos de poder e revelações de cunho religioso que os acompanharam durante as gerações e experiências vividas. Compreende-se que a formação da identidade dos Arturos é indissociável da construção da identidade dos negros na sociedade brasileira.
    De acordo com Castells, M. em sua trilogia A Era da Informação – O Poder da Identidade (1999), “identidades constituem fontes de significado para os próprios
    atores, por eles originadas e construídas por eles por meio de um processo de individuação.“ Assim, a construção de significados faz parte da comunidade dos Arturos desde a sua fundação. Houve uma identidade primária a partir do pai fundador, que perpetua na herança dos filhos até os dias atuais.
    Considerando-se o conceito de Identidade de Resistência de Castells, (1999) como sendo “aquela criada por atores que se encontram em posições desvalorizadas pela lógica da dominação. Constrói-se assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade.” A partir deste conceito, este estudo irá identificar como ocorreu essa construção entre os Arturos, e quais benefícios seus membros possuem, dentro da cultura de brasileiros afro-descendentes. A relação entre o fortalecimento da comunidade dos Arturos e a essência da resistência dos negros após a abolição da escravatura na cultura brasileira também será o foco deste estudo.
    Tendo em vista estes dados sobre a escravidão no Brasil, os Arturos, nos dias atuais, continuam mantendo as tradições dos antepassados, vivenciando a experiência da cultura de origem africana em Minas Gerais. Localizam-se em um sítio na cidade industrial de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte e transmitem sua história através das tradições religiosas de geração em geração.
    Essa comunidade, descendente de Arthur Camilo Silvério e Carmelinda Maria da Silva, pratica importante manifestação da religiosidade afro-brasileira que remete ao período colonial.
    As celebrações realizadas pelos Arturos são a mais importante manifestação cultural no município de Contagem e possuem reconhecimento no Estado de Minas Gerais por sua singularidade na exteriorização do sagrado. “É um dos mais importantes símbolos da resistência negra em Minas Gerais e no Brasil”. “(Fonte: Anais do 7º Encontro de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004)”.
    A identidade desta comunidade constituída através da tradição cultural e religiosa dos antepassados apresenta características únicas e diferenciadas.
    Os Arturos se reconhecem como portadores de uma história que representa a resistência e fortalecimento do negro no Brasil ao longo de sua história.
    A comunidade pode ser analisada através de sua formação em que os traços étnicos, familiares, comportamentais, históricos e culturais determinam o comportamento e sua identidade. A experiência da vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social instituem princípios e valores que orientam as escolhas objetivas e subjetivas da população nessa comunidade. Neste sentido, o conhecimento da construção histórica da comunidade nos permite delinear processos futuros de fortalecimento de outras comunidades brasileiras em estado de vulnerabilidade.
    Assim, dados como data de fundação, o seu crescimento, suas atividades, datas de encontros e/ou festas e biografias dos responsáveis (“Arturos de 1ª Linha”, ou seja, os descendentes diretos de Arthur Camilo Silvério), são ferramentas de fortalecimento da identidade do seu povo, que serão analisados neste trabalho.
    A comunidade dos Arturos é um exemplo de terra remanescente de quilombo situada na próxima à região urbana de Belo Horizonte. Essa comunidade vem ao longo de mais de 100 anos mantendo suas tradições, hábitos e atitudes originárias dos fundadores negros escravos do Brasil pós-abolição da escravatura.
    A história dos Arturos começou com Camilo Silvério, o qual teria chegado à província de Minas Gerais como escravo, em meados do século XIX. Casou-se com Felisbina Rita Cândida, em Vila Santa Quitéria, hoje município de Esmeraldas. (SELDINHA DE JESUS E JUNIELE RABÊLO DE ALMEIDA, 2002).
    As manifestações culturais na Comunidade dos Arturos, tais como Congado e festas como: “Libertação dos Escravos”, “Nossa Senhora do Rosário”, “João do Mato”, “Folia de Reis”, e o “Ritual do Candomblé” (Ramos, 2000: 51) são símbolos e rituais passados de geração em geração, e constituem um legado para compreensão da cultura brasileira.
    A vivência dos mitos faz com que a comunidade busque integrar seus medos e anseios, e assim conseguir sobreviver frente aos desafios do cotidiano. As manifestações culturais dos Arturos no mundo contemporâneo constituem em uma alternativa saudável de comunicação com a realidade vivida no cotidiano.
    “As festas populares permitem o entrelaçamento entre as esferas da experiência concreta e sua representação pública, a aproximação entre cotidiano e cultura, sagrado e profano, contrição e gozo” (MENDONÇA, 2001, p. 5).
    A transmissão do conhecimento e educação dos jovens ocorre através da expressão corporal, rítmica, e artística existente nas danças e rituais da comunidade. A cultura se perpetua através das tradições culturais repassadas de geração em geração utilizando-se múltiplos processos metodológicos.
    O desafio atual é manter as tradições culturais ancestrais e ampliar suas influências para outros grupos, fortalecendo a comunidade e o conceito de remanescentes dos quilombos.
    Com o passar do tempo, a comunidade enfrenta novos desafios.
    Hoje, seus membros não habitam somente o terreno demarcado,
    mas se espalham pela região metropolitana por motivos de trabalho e casamento. Estima-se uma população de mais de 400 pessoas. Se os laços familiares foram expandidos, como conseguem manter a tradição?(Luan Barros, 2009)

Fatores determinantes para a manutenção da cultura e da identidade dos Arturos
Os elos de ligação entre os descendentes de Artur Camilo são compostos por uma rede de símbolos e significados que foram sendo compostos ao longo da história de vida e sobrevivência desse grupo familiar.
O fundador Artur Camilo foi um dos filhos do ex-escravo Camilo Silvério, e de acordo com os depoimentos dos entrevistados, em função de suas características pessoais de personalidade conseguiu perpetuar a tradição familiar. Os demais filhos de Camilo Silvério não conseguiram manter o vínculo com sua descendência e manter as tradições familiares e culturais ao longo do tempo. Artur Camilo foi o único herdeiro que manteve a propriedade atual produzindo e incentivando a sua perpetuação pelos descendentes.
Os entrevistados descendentes diretos de Artur Camilo relataram que este era percebido como sendo bastante rígido e severo no cumprimento de prazos, horários e na exigência de obediência dos mais novos para com os mais velhos. A exigência em relação à obediência aos mais velhos é uma característica bastante ressaltada pelos descendentes durante as entrevistas.

Esse temperamento nato de Artur Camilo, junto com sua religiosidade, fé e força de trabalho consolidou o início do estabelecimento de sua família e descendência. A obediência e respeito às regras e leis dos antepassados é transmitida de geração em geração como sendo um valor de sobrevivência e manutenção das tradições da comunidade.

O respeito às tradições, bem como aos mais velhos é um aspecto filosófico que merece ser transmitido a todas as gerações de brasileiros. Vivemos em um momento de grandes mudanças nos valores humanos em todas as áreas da sociedade. E mudanças muitas vezes negativas, com alto perigo nas relações
interpessoais, causando mortes, separações, acidentes e sequelas que muitas vezes não cicatrizam. A educação das crianças é uma dessas áreas que merece nossa atenção.
Os Arturos nos ensinam que o respeito aos mais velhos traz identidade, segurança e sentimento de pertencimento a um ambiente equilibrado de saúde física, mental e espiritual. Esses princípios são os fundamentos para uma vida de maior integração humana e social, e consequentemente de maior harmonia e paz.

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